
Ficha de leitura nº 8

Radiação de celulares na gravidez
A exposição à radiação de telefones celulares durante a gravidez afeta o desenvolvimento cerebral dos recém-nascidos.
Segundo os pesquisadores da Universidade de Yale (EUA), as alterações verificadas no cérebro podem levar ao surgimento da hiperatividade.
Os resultados, baseados em estudos realizados em camundongos, foram publicados na Scientific Reports, uma publicação da revista científica Nature.
"Esta é a primeira evidência experimental de que a exposição do feto à radiação de radiofrequência dos telefones celulares de fato afeta o comportamento quando adulto," disse o coordenador do estudo, Dr. Hugh S. Taylor.
Hiperatividade e redução na memória
Taylor e seus coautores expuseram as camundongos grávidas à radiação de um telefone celular, ligado e com uma chamada ativa, mas sem transmissão de voz, posicionado acima da gaiola.
Um grupo de controle foi mantido sob as mesmas condições, com o telefone ligado, mas sem a chamada ativa.
Depois que os camundongos nascidos dessas mães ficaram adultos, a equipe mediu a atividade elétrica dos seus cérebros, e fizeram uma bateria de exames psicológicos e comportamentais.
Eles descobriram que os camundongos que foram expostos à radiação tendem a ser mais hiperativos e apresentam redução na capacidade de memória.
Telefone celular
Taylor atribui as mudanças comportamentais a um efeito induzido pela radiação do celular durante a gravidez sobre o desenvolvimento dos neurônios na região do cérebro chamada córtex pré-frontal.
O Transtorno de Déficit Atenção/Hiperatividade (TDAH) é uma desordem desenvolvimental associada com uma neuropatologia localizada primariamente na mesma região do cérebro, e é caracterizada pela desatenção e pela hiperatividade.
"Nós demonstramos que os problemas comportamentais nos camundongos, que lembram a TDAH, são causados pela exposição [à radiação do] telefone celular quando ainda no útero," disse o Dr. Taylor. "O aumento das desordens comportamentais nas crianças humanas pode em parte ser decorrente da exposição do feto à irradiação dos telefones celulares."
Efeitos no ser humano
O pesquisador afirma que serão necessárias pesquisas adicionais em humanos para se compreender melhor os mecanismos por trás dessas descobertas, e para estabelecer limites seguros de exposição à radiação dos telefones celulares durante a gravidez.
De qualquer forma, afirma ele, a limitação da exposição do feto parece ser algo a ser necessariamente feito.
Nesses casos, a transposição dos resultados para os seres humanos deve se basear em pesquisas com animais, uma vez que nenhuma comissão de ética aprovaria pesquisas com mulheres grávidas que possam, ainda que eventualmente, resultar em danos aos seus filhos.
Modelo de Parkinson
Macacos que tiveram induzidos sintomas semelhantes aos do Mal de Parkinson apresentaram uma grande melhoria recebendo uma injeção de células-tronco embrionárias humanas.
As células-tronco foram aplicadas diretamente no cérebro dos animais, por meio de uma injeção.
A equipe do Dr. Jun Takahashi, da Universidade de Quioto (Japão), danificou o cérebro dos animais com um composto químico que destrói neurônios que produzem dopamina, gerando sintomas como os do Mal de Parkinson.
As células-tronco embrionárias humanas foram cultivadas até que se maturassem em uma forma inicial de uma célula nervosa, sendo então aplicadas no cérebro dos animais.
Neurônios funcionais
Seis meses depois, os macacos recuperaram entre 20 e 45% dos movimentos que haviam perdido antes do tratamento.
Análises post-mortem realizadas um ano após a aplicação das células-tronco mostraram que estas haviam gerado neurônios produtores de dopamina totalmente funcionais.
"Macacos com começaram com tremores e rigidez começaram a se mover suavemente, e animais originalmente condenados a permanecer sentados foram capazes de andar," disse Takahashi.
A equipe afirma que serão necessários vários estudos adicionais antes que um teste clínico possa ser feito em humanos, o que eles estimam levará de quatro a seis anos.
Pariparoba
Um composto extraído da pariparoba (Pothomorphe umbellata), um arbusto originário da Mata Atlântica, é capaz de inibir o desenvolvimento do melanoma, o câncer de pele.
Os testes de laboratório mostraram que o composto ativo retirada da planta é capaz inclusive de impedir que as células tumorais invadam a camada mais profunda da pele e se espalhem para outros tecidos.
Esse composto ativo, uma molécula batizada de 4-nerolidilcatecol (4-NC), foi isolada e testada por Carla Abdo Brohem, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.
A equipe já iniciou a etapa de testes em animais. Os primeiros resultados estão em artigo publicado na revista Pigment Cell & Melanoma Research.
Melanoma
Segundo Silvya Stuchi Maria-Engler, coordenadora da equipe, o melanoma é a forma mais agressiva de câncer de pele e tem origem nas células produtoras de pigmentos, os melanócitos - entre 20% a 25% dos pacientes diagnosticados com a doença morrem.
"Se tratado na fase inicial, as chances de cura são altas. Mas quando ele se torna metastático o tempo de sobrevida é curto, em torno de oito meses, pois o tumor é muito resistente às drogas existentes. Medicamentos novos, portanto, são bem-vindos", disse.
O composto 4-NC, encontrado no extrato da raiz da pariparoba, já havia demonstrado possuir um potente efeito antioxidante, capaz de proteger a pele dos danos causados pela radiação solar.
Em 2004, uma formulação em gel contendo extrato de raiz de pariparoba foi patenteada para uso cosmético para prevenção do câncer de pele.
Testes posteriores, em culturas de células tumorais, demonstraram que o 4-NC era capaz de induzir a morte celular.
Agora, no modelo de pele em 3D, o 4-NC impediu que as células tumorais migrassem da epiderme para a derme. Dependendo dos testes de toxicidade em animais, ela poderá ser testada em humanos.
"Mesmo que ele não se prove eficaz contra o melanoma nas demais etapas da pesquisa, o composto tem diversas qualidades. Podemos avaliá-lo contra outros tipos de câncer", disse a professora Silvya.
Pele artificial
Para testar o composto da planta medicinal, as pesquisadoras usaram uma pele artificial, também desenvolvida pela equipe.
"A gente chama de artificial, mas se trata de pele humana reconstruída em laboratório," explica Silvya. Tudo começa com um fragmento de pele doado após cirurgia plástica, que a equipe recebe graças a parcerias com o Hospital Universitário e com o Hospital das Clínicas.
Os cientistas então isolam os constituintes básicos da pele - fibroblastos, queratinócitos e melanócitos - e os armazenam em um biobanco.
"No momento em que precisamos testar uma nova molécula, remontamos esses elementos e construímos um tecido muito semelhante à pele humana", conta a cientista.
Modelo de pele
Além dos estudos com o 4-NC, a pesquisa tem outros desdobramentos. Em um deles, células do sistema imunológico estão sendo acrescentadas ao modelo de pele artificial, deixando-o ainda mais completo.
"Dessa forma, além de testar a toxicidade e a eficácia de um novo composto, poderemos avaliar se ele tem potencial para causar alergia ou irritação", explicou.
Em outra vertente, os pesquisadores simulam in vitro as condições de uma pele envelhecida.
"Com o passar dos anos, resíduos de glicose se depositam sobre as proteínas, como por exemplo o colágeno. Isso desorganiza a matriz extracelular que compõe a camada dérmica da pele, causando rugas e flacidez", disse Silvya.
Esse problema, acrescentou, ocorre de forma mais evidente na pele de pacientes diabéticos e tornam mais difícil a cicatrização de ferimentos. O modelo de pele envelhecida, portanto, permitirá testar a ação de cosméticos antirrugas e de medicamentos para a pele de diabéticos.
"Nosso objetivo, a longo prazo, é realizar transplante de pele para tratar feridas crônicas e queimaduras", disse.
A vantagem das pesquisas feitas com pele artificial é a redução no uso de cobaias, além de ser um tecido mais semelhante ao humano. No caso dos cosméticos, é possível eliminar totalmente os testes em animais.
Pele nacional
Na Europa e nos Estados Unidos são vendidos kits de pele artificial para a indústria cosmética e farmacêutica.
No Brasil, as empresas precisam enviar suas moléculas para serem testadas no exterior, embora o país já possua a tecnologia.
"Fomos procurados por diversas empresas, mas não temos condições de realizar esse serviço como rotina. Para isso, seria preciso grande investimento em equipamentos e treinamento de profissionais", disse a pesquisadora.
Eritropoietina
A eritropoietina, hormônio produzido no rim e utilizado medicinalmente para tratar a anemia, pode ser usada para tratar a sepse, um grau avançado de infecção.
"Atualmente o principal tratamento da sepse é feito com antibióticos e soro para manter a pressão arterial em caso de choque séptico, que é o pior tipo de sepse", afirma a médica Camila Eleutério Rodrigues, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
Em sua pesquisa, Camila estudou a utilização do ativador contínuo do receptor da eritropoietina (CERA, sigla em inglês).
Efeito duradouro
O trabalho de Camila segue a tendência internacional de buscar alternativas para o tratamento da sepse.
O estudo mostra que a diferença do CERA para a eritropoietina é a capacidade de funcionar por um maior período no organismo.
"O paciente que usa a eritropoietina precisa de três doses semanais. Já com o CERA é possível tratar o paciente anêmico com uma dose por mês", afirma.
Remédio seguro
A substância também tem outro aspecto que incentivou o seu estudo como alternativa para o tratamento de infecções: a eritropoietina já é usada para tratar anemia em pessoas que têm doença renal crônica.
"Ela tem como propriedades a capacidade de inibir a morte celular em alguns casos, além de ser capaz de aumentar a pressão arterial e modular o sistema imunológico, com possível ação de inibição de atividade inflamatória", explica Camila.
A vantagem de a eritropoietina ser uma substância utilizada em humanos em outros tratamentos é já serem conhecidos seus efeitos colaterais e saber-se que é uma substância segura.
Sepse
A sepse é definida como uma síndrome de reação inflamatória sistêmica associada a um foco infeccioso.
Frequentemente leva à disfunção de múltiplos órgãos, sendo que os mais afetados costumam ser os pulmões e os rins.
Nos Estados Unidos, a sepse está associada a 11% das internações em unidade de terapia intensiva (UTI) e é responsável por cerca de 10% das mortes registradas anualmente.
Os estudos foram realizados a partir de induções de sepse em ratos de laboratório pela exposição do abdômen a bactérias.
Segundo Camila, esse é o modelo animal que melhor mimetiza a sepse humana. "É o que acontece, por exemplo, quando uma pessoa tem uma úlcera perfurada", afirma.
Os animais sépticos apresentaram problemas como disfunção renal, hepática e de pequenos vasos sanguíneos. "Percebemos que eles também têm expressão aumentada de toll like receptors tipo 4 (TLR4), de fator nuclear kappa B (NF-kB) e citocinas inflamatórias. Há ainda a redução na expressão de receptores de eritropoietina no rim", afirma Camila.
Citocinas
O TLR4 é um receptor presente nas células do sistema imunológico que, em contato com bactérias, inicia a inflamação pelo corpo. O NF-kB é uma substância presente no sangue que, quando estimulada, atua no núcleo das células produzindo citocinas, proteínas que atuam na ativação da resposta do sistema imunológico à infecção.
Uma grande quantidade dessas substâncias no organismo indica a presença de uma infecção severa.
Os ratos tratados previamente com o CERA apresentaram melhora nas disfunções renal, hepática e microvascular, além de terem menor expressão de TLR4, NF-kB e citocinas. Eles também expressaram mais receptores de eritropoietina no rim que o grupo séptico.
Mutabilidade do DNA
Que os exercícios físicos ajudam a manter o corpo saudável já se sabe desde a Antiguidade.
Mas foi necessário um pouco mais de estudos para descobrir como os exercícios ativam o corpo para gerar esses benefícios.
E tudo parece começar em um lugar aparentemente insuspeito, normalmente tido como um código que nos torna o que somos, ao menos fisiologicamente - no DNA.
O fato é que fazer exercícios altera o DNA em poucos minutos.
Mutação instantânea
Embora o código genético básico permaneça o mesmo em reação às atividades físicas - você não sofrerá mutações anômalas por se exercitar -, as moléculas de DNA no interior das células musculares sofrem alterações não apenas químicas, mas também estruturais, de formas muito específicas.
Elas ganham ou perdem marcadores de grupos metil em sequências específicas e bem conhecidas do DNA.
As mutações no DNA induzidas pelos exercício acontecem por meio das chamadas alterações epigenéticas.
E, segundo os pesquisadores, elas parecem estar na base de uma cadeia de eventos que responde pelos benefícios fisiológicos dos exercícios.
Metilação
Os experimentos mostraram que o DNA nas células musculares tem menos grupos metil - ou metilas - após os exercícios do que antes.
As alterações também envolvem áreas na superfície do DNA que funcionam como pontos de ancoragem para várias enzimas, os chamados fatores de transcrição.
"Já se sabia que os exercícios induzem alterações nos músculos, incluindo um incremento no metabolismo do açúcar e das gorduras. O que descobrimos é que a mudança na metilação vem primeiro," diz a Dra. Juleen Zierath, do Instituto Karolinska, na Suécia.
A metilação é um dos mecanismos da herança genética. As metilas funcionam como uma espécie de chave que ativa e desativa os genes.