Conteúdo/Assunto: Novas espécies
Pesquisador: Ana Rita Rito
23.02.2012
Helena
Geraldes
Insectos
primitivos sem asas e sem olhos foram encontrados a quase dois quilómetros de
profundidade, na mais completa escuridão, na gruta mais funda do planeta, na
Geórgia. A expedição, na qual participou a cientista portuguesa Sofia
Reboleira, não esperava encontrar vida tantos metros abaixo do solo.
Portuguesa ajuda a descobrir novas espécies na gruta mais profunda da Terra
Insectos primitivos sem asas e sem olhos foram encontrados a quase dois quilómetros de profundidade, na mais completa escuridão, na gruta mais funda do planeta, na Geórgia. A expedição, na qual participou a cientista portuguesa Sofia Reboleira, não esperava encontrar vida tantos metros abaixo do solo.
No Verão de
2010, uma expedição ibero-russa de 30 pessoas (CAVEX Team) esteve 30 dias no
interior da gruta Krubera-Vorónia, na região da Abkhazia, no Norte da Geórgia e
perto do Mar Negro, com os seus 2191 metros de profundidade.
Sofia
Reboleira, investigadora do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro,
e o seu colega espanhol Alberto Sendra, do Museu Valenciano de História
Natural, descobriram quatro novas espécies de colêmbolos, insectos primitivos
sem asas e sem olhos, adaptados à vida subterrânea, na mais completa escuridão:
Anurida stereoodorata, Deuteraphorura kruberaensis, Schaefferia profundisima e
Plutomurus ortobalaganensis. Este último, encontrado a 1980 metros de
profundidade, é o animal subterrâneo terrestre mais profundo até agora
conhecido. Cada uma das espécies tem exemplares que medem entre um e quatro
milímetros.
“Fomos
surpreendidos por uma biodiversidade superior àquela que esperávamos a tão
grandes profundidades. Não se conheciam animais cavernícolas a viver abaixo dos
1000 metros de profundidade”, diz a cientista ao PÚBLICO.
A gruta
Krubera-Vorónia é a única no mundo que supera os dois quilómetros de
profundidade. Apesar das várias expedições ao seu interior – entre as quais da
CAVEX Team que a estuda há 10 anos – esta foi a primeira vez que se estudou a
sua fauna.
Os animais
encontrados estão adaptados para sobreviver em condições subterrâneas extremas,
como a ausência total de luz e a pouca disponibilidade de alimentos. O zoólogo
Enrique Baquero, da Universidade de Navarra, descreveu as espécies encontradas
num artigo publicada na revista Terrestrial Arthropod Reviews. “Como resposta a
estas condições, nenhum dos animais tem olhos e/ou pigmentação. Além disso, uma
das espécies desenvolveu um quimioreceptor, uma espécie de antena parabólica
química que lhe permite mover-se num local tão complicado”, disse o
investigador citado num comunicado daquela universidade.
Com seis
toneladas às costasSofia Reboleira, 31 anos, foi convidada pela CAVEX Team a
participar na expedição à gruta Krubera-Vorónia, uma missão que “foi custeada
na totalidade por cada um dos participantes, sem apoios externos ou
patrocínios”, disse.
Mas chegar
e descer à gruta mais profunda do planeta – com cavidades formadas quando o Mar
Negro estava praticamente seco e com níveis freáticos muito mais baixos do que
actualmente – foi uma missão exigente.
“Esta
cavidade está situada na Abkhazia e é necessário passar pela Rússia e cruzar a
fronteira a pé com todo o equipamento às costas. A subida à zona do acampamento
é feita em camiões militares que carregam os espeleólogos e as cerca de seis
toneladas de equipamento necessário para uma expedição desta magnitude”, conta.
Este inclui equipamentos de espeleologia, de mergulho e comida para 30 pessoas
durante 30 dias.
“Os camiões
cruzam a zona de floresta e sobem às montanhas do Cáucaso, deixando-nos na base
do vale do Ortobalagan, onde estão situadas várias grutas profundas, entre as
quais a Krubera-Vorónia”.
Depois,
“todo o material é carregado, pelos expedicionários, desde a base do vale até à
zona da entrada da cavidade, onde se estabelece o campo espeleológico”. Este é
um trabalho comunitário no qual todos ajudam e que dura cerca de quatro dias.
Uma vez no
interior da gruta – onde as temperaturas oscilam entre 0.5ºC e 5ºC e a água
fria é omnipresente, o que “dificulta todo o tipo de trabalho no seu interior”
–, “é necessário instalar cordas por toda a cavidade, o que consome quase três
quilómetros de corda, e instalar os acampamentos subterrâneos, onde os
espeleólogos descansam, comem e dormem”.
O trabalho
da CAVEX Team em Krubera-Vorónia não terminou. “A gruta é tão grande como o
empenho das pessoas. Pensamos voltar” em 2013, disse Sofia Reboleira.
Esta
investigadora já tem descoberto em Portugal novas espécies em grutas. Em
Dezembro de 2010 anunciou a descoberta de um pseudoescorpião ( Titanobochica
magna) e um escaravelho (Trechus tatai) no Algarve e em Montejunto. Um ano
depois publicou na revista Zootaxa a descoberta de um insecto mais primitivo do
que aqueles que se conhecem actualmente, o Litocampa mendesi, numa gruta
algarvia.
Notícia
corrigida às 20h17: Os animais encontrados estão adaptados para sobreviver em
condições subterrâneas extremas e não "adaptaram-se para
sobreviverem" em condições subterrâneas extremas.
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