sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mulheres vivem muito além do período fértil

Ficha de Leitura nº10
Unidade de Ensino: Reprodução Humana e Manipulação da Fertilidade
Conteúdo/Assunto:Menopausa
Pesquisador: Ana Rita Rito


Nova pesquisa esclarece porque as mulheres ainda vivem por décadas depois de perder a capacidade de
reprodução enquanto que em outras espécies isso não ocorre
por Tabitha M. Powledge

A origem da menopausa tem desconcertado os biólogos evolucionários nos últimos 50 anos. Três novos estudos estão tentando entender não a menopausa em si, mas porque as mulheres são as únicas a sobreviver muito além de seu período fértil.

Os ovários humanos tendem a parar de funcionar por volta dos 50 anos, ou até antes. No entanto, as mulheres geralmente continuam tendo vida saudável por décadas, o que contradiz a teoria evolucionária, segundo a qual a perda da fertilidade seria o fim da linha, porque não havendo mais procriação, a evolução não pode mais selecionar genes que garantam a sobrevivência da espécie.

A explicação mais popular, a “hipótese da avó,” defende que a longevidade pós-reprodutiva faz sentido uma vez que a avó ajuda a garantir a sobrevivência e reprodução de seus netos, dessa forma assegurando a continuação de seus próprios genes ─ inclusive dos genes que contribuem para a longevidade. No entanto, os céticos avaliam que a matemática pode estar distorcida. Da perspectiva evolucionária, não é bom que uma mulher deixe de gerar mais filhos, e dessa forma, passe adiante metade de seus genes, para dedicar-se a melhorar a sobrevivência de seus netos, que carregam apenas um quarto deles.




Mulheres vivem muito além do período fertile
Nova pesquisa esclarece porque as mulheres ainda vivem por décadas depois de perder a
capacidade de reprodução enquanto que em outras espécies isso não ocorre
por Tabitha M. Powledge


A origem da menopausa tem desconcertado os biólogos evolucionários nos últimos 50 anos. Três novos estudos estão tentando entender não a menopausa em si, mas porque as mulheres são as únicas a sobreviver muito além de seu período fértil.

Os ovários humanos tendem a parar de funcionar por volta dos 50 anos, ou até antes. No entanto, as mulheres geralmente continuam tendo vida saudável por décadas, o que contradiz a teoria evolucionária, segundo a qual a perda da fertilidade seria o fim da linha, porque não havendo mais procriação, a evolução não pode mais selecionar genes que garantam a sobrevivência da espécie.

A explicação mais popular, a “hipótese da avó,” defende que a longevidade pós-reprodutiva faz sentido uma vez que a avó ajuda a garantir a sobrevivência e reprodução de seus netos, dessa forma assegurando a continuação de seus próprios genes ─ inclusive dos genes que contribuem para a longevidade. No entanto, os céticos avaliam que a matemática pode estar distorcida. Da perspectiva evolucionária, não é bom que uma mulher deixe de gerar mais filhos, e dessa forma, passe adiante metade de seus genes, para dedicar-se a melhorar a sobrevivência de seus netos, que carregam apenas um quarto deles.

“O problema é que os benefícios dessas avós não são suficientes para determinar o fim da procriação entre os 40 e 50 anos de idade,” observa Michael Cant, biólogo evolucionário da University of Exeter, na Inglaterra, e co-autor de um estudo sobre a gênese da menopausa, publicado em abril no Proceedings of the National Academy of Sciences USA. “Quando se observa os dados de caçadores-coletores e outras populações com fertilidade natural, os números não conferem.” As avós de fato auxiliam seus descendentes, ele avalia, mas a recompensa genética é pequena comparada com a de gerar outra criança.
Cant e Rufus Johnstone, também biólogo evolucionário, mas da University of Cambridge, na Inglaterra, usaram a teoria dos jogos para justificar que a menopausa é uma suspensão precoce da reprodução originada por conflitos reprodutivos entre gerações. Em espécies em que a procriação se dá cooperativamente, a reprodução é suspensa em fêmeas jovens, que agem como auxiliares para fêmeas reprodutoras mais velhas. Nos grupos sociais humanos, ao contrário, as mulheres mais jovens ganham a corrida da reprodução, porque as mais velhas param de ter filhos.

“Mostramos que, comparados com outros primatas que apresentam longevidade pós-reprodutiva, os humanos realmente se sobressaem, porque não existe absolutamente nenhuma sobreposição na reprodução entre gerações,” esclarece Cant. “Em média, as mulheres param de procriar quando a geração seguinte começa.”

Isso faz sentido em termos evolucionários, avaliam Cant e Johnstone, porque, ao contrário da maioria dos mamíferos, as mulheres jovens costumam se mudar para locais onde vivem seus companheiros, onde se tornam migrantes cujos únicos parentes genéticos são seus próprios filhos. Não há nenhum benefício genético em ajudar as sogras a terem mais filhos, porque elas não compartilharam nenhum gene com suas crianças. Mas uma mulher mais velha que ajuda a nora a procriar se beneficiará ao passar 25% de seus genes para os netos.

“Mostramos que a melhor estratégia da sogra é parar de procriar, evitar competição, permitir que a nora procrie e ajudá-la,” sugere Cant. “Pela primeira vez foi apresentada a idéia de que os humanos evoluíram com essa tendência de separação sexual e se preocuparam com as implicações de como esses conflitos seriam resolvidos dentro da família.”
A criadora da “hipótese da avó”, a antropóloga Kirsten Hawkes, da University of Utah, avalia que Cant e Johnstone estão certos ao se concentrarem no conflito entre gerações. Elefantes têm filhotes aos 60 anos e algumas baleias dão à luz aos 80. “Isso evidentemente é algo que pode ser ajustado pela seleção,” observa. “Portanto, explicar porque isso não ocorreu conosco faz parte do problema.” Mas Hawkes rebate a hipótese de Cant e Johnstone de que a tendência de separação feminina da família é, de fato, o padrão universal inerente aos humanos/símios, observando que metade das jovens chimpanzés no Gombe Stream Research Center, no vale Kakombe, Tanzânia ─ da antropóloga Jane Goodall ─ permanecem com suas mães, e que estudos recentes mostram que caçadores-coletores frequentemente viviam com as famílias das esposas.

Outra explicação para a menopausa é a “hipótese da mãe”, que defende que isso ocorre porque mães mais velhas se beneficiariam mais investindo recursos nos filhos já nascidos, que dando à luz novos bebês. Pesquisadores do Instituto Max Planck para Pesquisa Demográfica, em Rostock, Alemanha, defenderam essa idéia no American Journal of Physical Anthropology, concluindo que a menopausa é benéfica pois ocorre numa idade em que a mulher pode correr mais risco de ter um bebê natimorto, ou com defeitos de nascença ou pode vir a falecer no parto.

Em um estudo diferente, baseado no equivalente a 400 anos de dados sobre nascimentos na Costa Rica, os pesquisadores acreditam que a longevidade pós-menopausa está associada com um aumento no número de filhos, mas com um decréscimo no número de netos ─ uma descoberta que apóia “mães” contra “avós”.

“Isso não significa que as avós não tenham participação benéfica em algumas sociedades,” esclarece Lorena Madrigal, antropóloga da University of South Florida, em Tampa, e co-autora do estudo. Mas, “não devemos apostar num padrão que sirva para tudo.”

Dados sobre a fertilidade de grandes primatas, apesar de inconsistentes, mostram que nossos parentes mais próximos ─ chimpanzés, bonobos, gorilas, e até orangotangos ─ param de procriar por volta da mesma idade que os humanos: no final dos trinta anos. A diferença é que eles geralmente morrem pouco tempo depois. “O que nos torna diferentes dos macacos não é a idade do declínio da fertilidade, mas o envelhecimento que não ocorre em outras espécies,” comenta Hawkes. “Insisti nessa afirmação por muito tempo, mas não creio que tenha sido ouvida. Provavelmente a maioria das pessoas está predisposta a concordar com proposta de Cant e Johnstone ou seja: 'Porque paramos de procriar tão cedo?' Na verdade, comparando com nossos parentes vivos mais próximos, não paramos.”



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